sobre viagens

“O que interessa na vida não é prever os perigos das viagens; é tê-las feito.”

Agostinho da Silva

Sobre praias

O recomeço vai iniciar. As perspetivas mantém-se altas para Ser e Fazer enquanto aqui estiver. Os sonhos e o bem querer são o mote. Pelas minhas filhas tudo. Aos que me acompanham na bonança e na tempestade, agradeço. E como prezo a gratidão e a justiça. Aos que me fazem perder tempo e deixam mágoa, agradeço também. Para já, a terra gira e o sol nasce, todos os dias. A vida é mesmo assim, uma grande lição. Esta é a minha praia. A todos até já, sempre.

eu nas palavras dela

“...Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.”

Clarice Lispector

Honra

“Ninguém jamais foi honrado por aquilo que recebeu. Honra é a recompensa por aquilo que damos.”

Calvin Coolidge

os males do mundo

“O mundo recompensa com mais frequência as aparências do mérito do que o próprio mérito.”

François La Rochefoucauld

post it

Os filhos tornam-se para os pais, segundo a educação que recebem, uma recompensa ou um castigo.

J. Petit Senn

“Qualquer coisa como um grito por dar”

[NÃO, NÃO É CANSAÇO... ]

Não, não é cansaço...  
    É uma quantidade de desilusão   
    Que se me entranha na espécie de pensar,   
    E um domingo às avessas  
    Do sentimento,  
    Um feriado passado no abismo...   

    Não, cansaço não é...  
    É eu estar existindo  
    E também o mundo,  
    Com tudo aquilo que contém,  
    Como tudo aquilo que nele se desdobra  
    E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.  

    Não.  Cansaço porquê?   
    É uma sensação abstracta  
    Da vida concreta —  
    Qualquer coisa como um grito   
    Por dar,  
    Qualquer coisa como uma angústia   
    Por sofrer,  
    Ou por sofrer completamente,   
    Ou por sofrer como...  

    Sim, ou por sofrer como...  
    Isso mesmo, como...  
    Como quê?...  
    Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.  

    (Ai, cegos que cantam na rua,   
    Que formidável realejo  
    Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)  

    Porque oiço, vejo.  
    Confesso: é cansaço!...

~~

Álvaro de Campos

pequeno (grande) Príncipe

Eu te amo —disse o Pequeno Príncipe.

Eu também te adoro —respondeu a rosa.

Mas não é a mesma coisa —respondeu ele, e logo continuou— Adorar é tomar posse de algo, de alguém. É buscar nos outros o que preenche as expectativa pessoais de afeto, de companhia. Adorar é fazer nosso aquilo que não nos pertence, é se apropriar ou desejar algo para nos completar, porque em algum momento reconhecemos que estamos carentes.

indiferença

“A indiferença e o abandono muitas vezes causam mais danos do que a aversão direta”

“a indiferença é a resposta mais dura, mesmo quando esperamos pouco”

jeito de mim

Sempre sorri. Para os conhecidos e para os desconhecidos. Erroneamente, irradio felicidade a cada segundo a que se me arreganha a dentadura. Depois de alguns anos, durante frações de segundos, a questionar-me do motivo, depreendo que estar a sorrir, por si só, em mim, não é sinónimo que estou feliz. É só mesmo um jeito, trejeito ou qualquer outro efeito.

o eu que era

Um dia conheci uma menina risonha. Acreditava que o mundo era um lugar imenso, com tanto para descobrir, com tantas pessoas para conhecer, com tanta adrenalina para se aventurar. A menina cresceu e o mundo diminuiu em tamanho, em beleza e em essência. Essa menina conheci no espelho e nunca mais a vi.

Essencialismo 1

Escolho
Só muito poucas coisas realmente importam
Posso fazer qualquer coisa mas não tudo

a quem não sabe amar

“Não ser amado é uma simples desventura; a verdadeira desgraça é não amar.”

-Albert Camus-

de querer, fazer e não conseguir

“Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado;
        Não venhas falar, nem sorrir.
Estou cansado de tudo, estou cansado
        E quero só dormir.

Dormir até acordado, sonhando
        Ou até sem sonhar,
Mas envolto num vago abandono brando
        A não ter que pensar.

Nunca soube querer, nunca soube sentir, até
        Pensar não foi certo em mim.
Deitei fora entre ortigas o que era a minha fé,
        Escrevi numa página em branco, «Fim».

As princesas incógnitas ficaram desconhecidas,
        Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro
Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,
        Mas nunca encontrei parceiro.

Por isso, se vieres, não te sentes a meu lado, nem fales,
        Só quero dormir, uma morte que seja
Uma coisa que me não rale nem com que tu te rales —
        Que ninguém deseja nem não deseja.

Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo
        As esperanças e ambições que tive,
E hoje sou apenas um suicídio tardo,
        Um desejo de dormir que ainda vive.

Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma,
        Como um barco abandonado,
Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma
        Sem se lhe saber o passado.

E o comandante do navio que segue deveras
        Entrevê na distância do mar
O fim do último representante das galeras,
        Que não sabia nadar.”

28-8-1927

Fernando Pessoa

Eu, nas palavras dele

Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.

Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que...,
Isto.”

16-6-1934
Álvaro de Campos